História do Bairro do Bixiga

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Introdução
O Bixiga é um pedaço de São Paulo, que compreende uma região geográfica específica, delimitada hoje por razões históricas, culturais e sentimentais, já que os marcos físicos, riachos e antigas propriedades, ficaram soterrados sob as avenidas e obras de uma São Paulo que cresceu vertiginosamente a partir do ciclo do café.
Bixiga é uma parte do subdistrito conhecido, desde 1910, como Bela Vista, mas sobreviveu como unidade da metrópole, com as características da liberdade, ecletismo e cultura dos diversos povos que fizeram a história da cidade. Seus limites são controversos, dado que não oficiais, mas neste guia consideraremos muito mais o que Armandinho Puglisi (vide no histórico do bairro quem foi o personagem) definia como “um estado de espírito”, do que quaisquer fronteiras formais.
Um espaço que teve um papel histórico e cultural inegável na formação de São Paulo, pelo que representou em termos de acolhimento aos imigrantes italianos e excluídos em geral (negros recém libertos e população pobre da cidade que nascia), e que foi o berço do trabalho livre e autônomo, onde artesãos e “ proto-profissionais liberais” deram o pontapé inicial para a construção de outra feição ao papel dos serviços na megalópole, e acabaram definindo o que é a vocação urbana no século XXI.
Este guia pretende contribuir para valorizar a identidade do Bixiga, espaço-síntese de povos, tradições e trabalho, que está de braços abertos ainda hoje a todos os visitantes da cidade, com suas atrações e oportunidades a quem se disponha a vivenciar um pouco de sua acolhida.
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Bem-vindos ao Bixiga!
Histórico
A origem dos campos e matos do Bexiga, remontam à Sesmaria do Capão (que significa mata isolada no meio do campo), dotadas a Antonio Pinto em 1559, passando desde então às mãos de diferentes proprietários, que ressaltam a antiguidade de seu passado em nomes como Antônio Rodrigues de Almeida, Fernão Dias Pais Leme, Pedro Taques, entre tantos outros.
A região, portanto, era parte de uma área mais extensa, bastante antiga e com posição estratégica para ocupação nos primórdios da Vila de Piratininga. A cidade se expandiu primeiramente para oeste, na direção do Anhangabaú, rumo ao espigão do Caaguaçú (hoje Av. Paulista), pois seu vale era mais fácil de se transpor do que o rio Tamanduateí, e a pequena várzea inundável do Anhangabaú era muito menor, facilitando sua superação. O centro foi se desenvolvendo nesse sentido, trazendo a presença de todas as classes sociais até a terceira parte do século XIX. As principais estradas da época tinham seu ponto de confluência para a região, no Largo do Piques: o Caminho do Piques (atual Rua da Consolação), e as estradas que iam para Santo Amaro e para Santos.
Nessa área de abrangência do Bexiga Antigo, ficavam ainda os mais significativos pontos de abastecimento de água da cidade: o Tanque Reúno, formado pelas águas do riacho Saracura, os de Santa Tereza e o do Matadouro. Também o abastecimento de gêneros de São Paulo teve seus primórdios no Bexiga: entre 1773/1774 o Matadouro Público (ou Curral do Conselho) ficava na Rua Santo Antônio, além do curtume pertencente a J.A.Coelho, da família Sertório, e daí vem uma das explicações para a origem do nome, pois no matadouro comercializar-se-iam bexigas de boi.
Outra referência ao lugar vem de um decreto municipal de 1793, indicando que proprietários deveriam carrear camadas de pedra do Bexiga para o Chafariz da Misericórdia. Registros de venda de terras de Capitão Melchior Pereira para Antonio Soares Cavalheiro Gomes e Abreu registram pela primeira vez o nome campos do Bexiga em fevereiro de 1794.
O registro mais preciso é de 1819, dando conta que existia por esses campos uma hospedaria para tropeiros, de propriedade de um homem conhecido como Antonio Bexiga, no Largo do Piques, onde o historiador francês Saint Hillaire quis se alojar quando esteve em SP, e ficou bem incomodado ao perceber que o alojamento na verdade era para os animais das tropas descansarem e pastarem, e para isso pagavam vintém; os proprietários dos animais nada pagavam e dormiam em cubículos que davam frente ao terreiro lamacento dos animais. Desse personagem, predecessor de hoteleiro, vem a suposição da segunda origem para o nome Bexiga: teria o tal Antonio marcas indeléveis no rosto, da epidemia que desde 1700 tanto assustava e assolava SP, a varíola, também conhecida por bexiga; o que teria alcunhado o tal hospedeiro, e, consequentemente, todas as terras e campos que o pertenciam.
Em 1878 os campos tornam-se lotes, que são comercializados pela Companhia Antonio J.L.Braga, dando a partida para a formação do bairro mais emblemático de uma São Paulo que se tornava cosmopolita: o Bexiga. O bairro tem uma onda de crescimento sem precedentes, quando imigrantes europeus, portugueses e principalmente italianos calabreses, pequenos artesãos, comerciantes e de ofícios independentes se estabeleceram em massa nas novas terras, que já eram ocupadas na sua parte baixa, próximas ao Riacho do Saracura, pelos ex-escravos e descendentes, além de mulheres e homens pobres oriundos da zona rural, constituindo uma urbanidade cosmopolita de moradia e sociabilidade sem precedentes. Essa diversidade étnica dos moradores, atuando muitas vezes em atividades de trabalhos autônomas, desenvolveram uma multiplicidade de tradições, práticas, costumes e símbolos, presentes na identidade do Bixiga atual, bairro da festa da Achiropita, dos artistas e do teatro, das cantinas italianas, da escola de samba Vai-Vai, da boemia e com tantas outras facetas que caracterizam a própria São Paulo.
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Armando Puglisi e o Bixiga com “i”
Armandinho Puglisi foi o pioneiro do que hoje se chamam agentes culturais. Que nasceu, como não podia deixar de ser, no mais significativo dos bairros culturais de São Paulo: o Bixiga. Descendente de italianos, nasceu com ajuda de parteira em 1931, em casa na rua dos Ingleses. Cresceu, brincou, estudou, trabalhou, fez amigos, casou, sambou, agitou, tudo sempre amando o bairro do Bixiga. Criou o Museu do Bixiga, reunindo peças do cotidiano da vida do bairro, e participou de todos os movimentos para elevar o nome do lugar, inclusive assíduo frequentador do Bloco dos Esfarrapados e da Vai-Vai. Seu espírito boêmio sintetizava a personalidade do Bixiga, e cativou a todos que o conheceram, deixando sementes para as gerações futuras de frequentadores no Museu do Bixiga.
Ele explicou melhor que ninguém a polêmica do nome Bixiga com “i”, no livro de memórias de Júlio Moreno, categorizando a ortografia definitivamente: “ para mim não existe Bexiga, mas sim Bixiga com i... deixa eu explicar, o Bixiga não existe oficialmente. O Bixiga é o centro da Bela Vista. ..A grande pergunta: mas como você sabe o que é o Bixiga e o que não é? Por exemplo: o Bixiga (essa até é uma frase que gosto de falar) é um estado de espírito. Você sente quando está no bixiga, você cheira à Bixiga” .
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CRISTINA
OKA &
AFONSO
ROPERTO©
Última
atualização:
Wednesday, 31 August, 2005
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Imagens
de todos os tempos!

Foto de 1860 - Largo do Bixiga (Piques) atual Praça da Bandeira. Vendo-se em primeiro plano hospedarias de tropeiros com vários cavalos na porta. Ao fundo, ladeira do Piques, atual Quirino de Andrade.Pode-se ver também em primeiro plano a hospedaria de tropeiros de Antonio Manoel Bixiga que era também proprietário da chácara do Bixiga. Coleção Ítalo Bagnoli DIM-DPH-SMC-PMSC.

Foto da chácara do Bixiga - ano de 1864. Em primeiro plano, carroças de boi (transporte usado na época para carregar madeira, tijolos, etc). No fundo à direita, a Ladeira do Piques, atual Quirino de Andrade e ao fundo, pouso de tropeiros ou estalagem. Toda esta área hoje pertence à Praça da Bandeira. Antigamente chamava-se Largo do Bixiga ou Piques. Neste Largo fazia-se leilões de escravos e feira de mercadorias. Coleção Ítalo Bagnoli DIM-DPH-SMC-PMSC.

Vale do Anhangabaú e Praça da Bandeira vista da Câmara Municipal.
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